De feirante à operária

Entre máquinas, filhos e sonhos de uma sociedade melhor, a sindicalista Rosimar consegue a realização pessoal. O trabalho como metalúrgica lhe deu independência financeira e abriu portas para trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Do terminal Ferrazópolis é possível avistar um prédio com uma inscrição em azul e branco no topo: Sindicato dos Metalúrgicos do ABC . O edifício é o berço das revoluções operárias na Grande São Paulo. No primeiro andar, uma sala pequena com duas mesas de escritório, cinco cadeiras, um armário e uma garrafa térmica com café. Atrás de uma das mesas há um mural com frases de mulheres conhecidas. Dentre outras citações de famosas, pode-se ler a da bailarina norte-americana Isadora Duncan: “Se você já foi ousada, não permita que a amansem”.
Ousada é a palavra certa para definir outra mulher: Rosimar Dias Machado. Foi a própria Rosi, como gosta de ser chamada, quem escolheu as frases que caracterizam a sala onde trabalha. Rosi representa os empregados da metalúrgica Makita. Ela cuida de assuntos como discriminação da mulher e das minorias em geral. Desde 2002 largou as máquinas da fábrica para exercer essa função para a qual foi eleita pelos colegas de trabalho.
Algumas companheiras, como ela prefere chamá-las, vão ao encontro de Rosi no sindicato. Não passam de dez. Já é noite e o expediente de Rosi chegou ao fim. Apesar da hora, as mulheres são recebidas por ela com um sorriso largo. A reunião é para apresentar as metalúrgicas eleitas para o novo mandato. Elas irão representar os trabalhadores por três anos no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Todas se dirigem ao pequeno auditório subterrâneo do edifício. Nem todas as representantes vão estar no primeiro mandato. É o caso de Rosi, que foi reeleita e continua por mais três anos no cargo que ocupa. Senta-se em um degrau “para ficar mais perto das companheiras” e se apresenta, caso alguém não a conheça. Desnecessário, todas sabem quem ela é. A admiração é unânime, Rosi é um exemplo de dedicação para todas que estão ali com o objetivo de lutar, principalmente, pelos direitos da mulher trabalhadora.
Vontade de lutar pela igualdade é um sonho antigo. Mas nem sempre ela esteve em posição que serve de exemplo para homens e mulheres como está atualmente. Essa mineira teve que ter muita paciência para conseguir mudar o rumo de sua vida. Aliás, mudança não é algo incomum para ela. Nasceu em 1º de fevereiro de 1958, em Douradoquara. Sobre o local de nascimento, ela diz gargalhando: “nem eu conheço”. Quando ainda era bebê, os pais se mudaram para Campinorte, Goiás. O pai morreu antes que ela completasse dois anos. A família, composta pela mãe de Rosi e mais cinco irmãos, viveu em diferentes cidades. Tinha apenas sete anos quando se mudou para São Paulo. Não demorou muito para que a mãe também falecesse. A garota ficou aos cuidados da irmã mais velha, Anita, que vivia em Diadema. A cidade fica na região ABCD paulista, composto pelos municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema, localizados ao redor da cidade de São Paulo. É um local famoso pela concentração de fábricas.
Anita era casada com um metalúrgico. Para não depender da irmã, Rosi foi trabalhar na tecelagem Beotex aos 14 anos. No fim de semana, “fazia um bico na feira com uma vizinha”. O tal bico era vender roupas não só com a vizinha, mas também com o irmão dessa, chamado João. A diferença de idade entre Rosi e João era de 16 anos. Ele já era um homem separado, com dois filhos e, por coincidência, metalúrgico da Volkswagen. Sonhadora, a garota se encantou com o charme e a experiência do homem mais velho.
João não conseguia resistir à jovialidade de Rosi. Não passou muito tempo para que ele a pedisse em namoro. Os dois não costumavam ficar sozinhos. Foram a um show com família e amigos no bairro paulistano do Ipiranga - ali ficava a feira em que trabalhavam e a casa dele. Era a primeira vez que saíam como namorados. Iriam trabalhar juntos, então Rosi dormiu na casa dele. “Não ficamos sozinhos na casa e nada aconteceu. Na madrugada do show, comi um cachorro-quente que me fez passar mal na feira. As pessoas começaram a fazer brincadeiras, disseram que eu estava grávida. Fiquei muito chateada”, conta.
Além das brincadeiras, muita gente dizia que João estava com Rosi só para se aproveitar. “Às vezes, eu não me sentia bem na casa da minha irmã. Queria ter meu próprio lugar”. Impulsionada por essas duas razões, ela aceitou casar com João tendo apenas 16 anos. Eles namoravam só havia seis meses. “Hoje eu sei que não estava apaixonada na época. Estava encantada com o jeito dele e com a possibilidade de ter meu próprio lar”.
Rosi mudou-se para o Ipiranga após o casamento. Ela saiu da tecelagem, pois a situação financeira de João era muito boa. “Só fazia algum trabalho no comércio para não precisar pedir dinheiro para ele toda hora”. Casada, achou que conseguiria a independência que sempre sonhou, que seria dona de sua vida. Afinal, teria uma família só dela.
Rosi acalentava o sonho de ser mãe. A espera pelo primeiro filho foi de menos de quatro anos. Roberto, o primogênito, nasceu em 1978. No ano seguinte, resolveram trocar o Ipiranga pela cidade de São Bernardo do Campo. A casa era boa, quatro quartos e um enorme quintal.
O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo estava no caminho de Rosi quando ia ao colégio para completar os estudos. Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, era o presidente do sindicato desde 1975. As greves e manifestações dos operários na luta por melhores salários e condições de trabalho eram constantes em todo o ABCD e o sindicato fervilhava. A jovem ficava fascinada cada vez que passava pela rua João Basso e via as mobilizações. “Eu queria participar daquela luta, tinha vontade de protestar também.” Apesar de João ser metalúrgico, ele não gostava e nem participava da luta operária. Como a própria Rosi diz, “sempre foi um pelego”.
Afazeres domésticos, vida cotidiana e um novo filho a afastaram um pouco do objetivo revolucionário. O segundo herdeiro recebeu o nome de Rodrigo. Rosi começou a perceber que João era uma pessoa muito fechada, pouco afetuosa. “Ele era um ótimo pai e marido, mas eu sentia falta de uma intimidade maior.” Enquanto ela distribuía abraços e sorrisos a todos, ele se mantinha distante.
Já eram dois filhos homens e nenhuma menina. João tinha uma filha do primeiro casamento. Rosi insistia para ficar grávida outra vez e ter a tão esperada garota. O marido não concordava. Ela ficou grávida mesmo assim. A partir do momento que o companheiro soube que ela esperava um bebê, cortou relações. Nem se falavam, mas continuavam morando na mesma casa. Renata nasceu em 30 de dezembro de 1982. “Não sei se foi porque as pessoas ficam mais sensíveis no período de festas, mas assim que Renata veio ao mundo, João me pediu perdão. Chorou muito e voltou falar comigo. Adorou a nova filha.”
A relação de pouco mais de 10 anos já estava desgastada. As brigas eram constantes e Rosi sentia cada vez mais vontade de tomar as rédeas da própria vida. Pensava nos filhos, que não poderia sustentar, tinha medo das dificuldades e adiava a separação. Os dois procuravam não discutir perto das crianças. Em uma noite, justamente quando se desentediam na cozinha, Roberto entrou no local. “Ele já tinha uns oito anos e entendia das coisas. Parou, olhou para mim e para o João e disse: Papai, por que você não deixa a mamãe ser feliz? Foi a gota d’água. Naquele momento, criei forças para me separar.”
Rosi e os três filhos foram morar na casa de uma de suas irmãs. A situação foi provisória. Dois meses depois os quatro já viviam em uma casa pequena: quarto e cozinha. João não dava dinheiro para forçá-la a voltar para casa. Era aposentado e ficou morando sozinho, a empregada cuidava de tudo. “Foi uma época difícil, trabalhei em lojas de roupa. Dava aos meus filhos tudo que eles tinham com o pai, mas com muita dificuldade.” Com o passar do tempo, o ex-marido começou a dar dinheiro e permitiu que as crianças ficassem em sua casa enquanto Rosi trabalhava. Ela sentiu na pele o que era trabalhar e cuidar da casa e dos filhos. Foi uma época de libertação também. “Comecei a sair, tudo que não vivi com 16 anos, experimentei aos 29”.
O sonho antigo de trabalhar em uma fábrica foi realizado em 1989, com o emprego na metalúrgica Abraçatec, localizada em São Bernardo do Campo. Antes de começar na empresa, ela trabalhava em um clube de carteado. “Ganhava bastante, mas não tinha carteira assinada e nem horário certo de trabalho. Meu salário se reduziu pela metade na Abraçatec, só que eu queria fazer aquele serviço.” Quando chegou à metalúrgica, Rosi logo percebeu a falta de organização dos trabalhadores. E lá foi ela tentar colocar ordem e conseguir melhores condições para os empregados.“Talvez pela minha vontade de mudar as coisas, não sei ao certo, mas só fiquei dois anos naquela fábrica. Fui mandada embora.”
Mais uma vez, Rosimar voltou ao comércio. Abriu uma lojinha de produtos esotéricos. A oportunidade de trabalhar na metalúrgica japonesa Makita surgiu em 1994. Ela aceitou na mesma hora. A rotina não era fácil. Acordava cedo, deixava os filhos na escola e ia trabalhar. Na hora do almoço, buscava as crianças, as deixava na casa de João e voltava para o trabalho. À noite, cuidava da casa. Cada filho tinha suas tarefas dentro do lar, seja arrumar a cama, lavar a louça ou ir à padaria. O programa de fim de semana era sair com a criançada para um parque ou cinema. “Quase não tinha tempo para mim.”
O sentimento de luta de Rosi foi despertado mais uma vez quando trabalhava na linha de montagem da Makita. A fábrica possuía pouco mais de 200 funcionários e outra vez a operária achou que devia fazer algo por todos. Era o momento de começar seguir o exemplo de luta dos companheiros do sindicato. Primeiro, ela foi representante da CIPA – a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – dentro da empresa. Conheceu Paulo, que trabalhava na Makita e passou a ser seu companheiro na conscientização dos trabalhadores. Nunca havia sido incentivada a participar do sindicato, Paulo foi o primeiro a fazê-lo.
Lula, que admirava desde as greves de 1978, foi eleito presidente do Brasil em 2002. No mesmo ano, os colegas de trabalho de Rosi a escolheram para representá-los no sindicato. Ela defende, principalmente, a situação da mulher dentro da fábrica. Rosi não tem horário certo para sair do trabalho. “Pregamos a necessidade do lazer, mas quando se está nessa função, fica muito reduzido. Fico no sindicato até resolver todos os problemas do dia. Não é assim nas fábricas, tem que bater cartão.” É com os olhos brilhando que a operária diz que valeu o sacrifício. Apenas se arrepende de ter cursado poucos semestres da faculdade de nutrição que tentou fazer. “Eu quero deixar um pedacinho de mim, melhorar um pouquinho a sociedade. Contribuir para que as injustiças sociais diminuam. Quando não estiver mais aqui, vou ter feito um trabalho que melhorou a vida das pessoas. Sempre foi esse meu objetivo, muito além de ser metalúrgica.”
Rosi está com 47 anos. Os filhos já estão criados. Roberto é metalúrgico. Rodrigo trabalha na loja de carros que o aposentado João abriu. A filha mais nova, Renata, é o xodó do pai e cursa o último ano da faculdade de relações públicas. Rosi, que só teve namorados desde a separação, não deseja se casar novamente.“Quero alguém para sair, que me acompanhe, mas não um marido. Agora, sou independente.” Rosi, finalmente, achou aquilo que queria conquistar quando se casou aos 16 anos: a independência. A realização só aconteceu com o trabalho.

* Perfil realizado pelos alunos do período diurno da disciplina de Jornalismo Literário ministrada no curso de Jornalismo, campus Morumbi, no primeiro semestre de 2005:

• Joyce P. Hara (joyce_hara@yahoo.com.br) – Depois do primeiro estágio no Sesc Interlagos optou pela área de assessoria de imprensa.
• Júlio Frascino (juliofrascino@yahoo.com.b) – Sua paixão por esporte o levou a trabalhar no programa “Esporte Total”.
• Keli Daiane Rodrigues (kellydaiane@hotmail.com) - Iniciou a carreira no Jornal da Band há dois anos. Agora está no Primeiro Jornal.
• Leila Fernanda Melo (leila.fernanda@uol.com.br) – Apesar de trabalhar em assessoria de imprensa, também está ávida para atuar no jornalismo impresso.
• Sylvia Barbosa Barreto (sylvia.barreto@uol.com.br) – Após passar pelo jornal Tribuna Paulista, descobriu sua vocação: escrever.